Denúncia do PGR e pesquisas inauguram nova fase de articulações na corrida eleitoral de 2026

A denúncia oferecida na semana passada pelo Procurador-Geral da República (PGR) contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por cinco crimes, entre eles tentativa de abolição do Estado democrático de Direito, inaugurou, na avaliação de cientistas e analistas políticos, uma nova etapa de articulações para as eleições gerais de 2026: a da urgência de construção de cenários concretos sem a participação do ex-presidente na corrida. Mas é prematuro projetar o impacto que a denúncia terá nas negociações para a definição de candidatos à presidência da República e, mesmo, aos governos estaduais ou ao Senado, já que estas duas últimas, em muitos casos, ocorrem de forma casada.
Em primeiro lugar, asseguram os especialistas, as decisões dependem do próprio ritmo dos trâmites jurídicos que envolvem o processo. Em segundo, partidos e pretendentes à corrida presidencial vão precisar observar também “o outro lado”, ou seja, a popularidade do presidente Lula (PT). Que vive, hoje, seu pior momento. Para além de se colocarem como substitutos à direita com capacidade de aglutinar multidões, ou de se identificarem como alternativas “ao centro”, postulantes ao Palácio do Planalto esperam para ver se o petista consegue ou não se recuperar.
“A denúncia fortalece muito o nome do Tarcísio (de Freitas, governador de SP, do Republicanos), o que não quer dizer que ele será candidato. E abre espaço para o surgimento de uma novidade, porque a polarização está em um momento de ‘estressamento’. Ela fala com 50% da sociedade. Os outros 50% não querem saber disso”, elenca o diretor da região Sul do Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político (Camp) e presidente da agência Moove, José Luiz Fuscaldo.
Para Fuscaldo, Bolsonaro não será candidato. Ele já está inelegível até 2030 devido a outra ação, julgada pelo TSE em 2023, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação. Mas, considera o especialista em marketing político, o ex-presidente não vai abrir espaço para o fortalecimento de outra liderança. Ao invés disto, deverá trabalhar para emplacar um dos filhos ou a esposa na vaga.
“O Tarcísio, se o Bolsonaro não fizer um gesto, vai deixar quieto. Tem uma reeleição praticamente assegurada ao governo em São Paulo. E, em 2030, vai sem Lula. O Lula está aí com essa imagem agora, mas até 2026 passa um oceano Atlântico nessa história. Agora, a depender dos acontecimentos, isso (candidatura de Tarcísio) pode mudar. Porque ninguém é presidente só porque quer, há todo um contexto de momentos propícios e forças em atuação”, elenca Fuscaldo.
Ele se refere ao fato de que, para além da denúncia, o nome do governador de São Paulo vem sendo turbinado nas bolsas de apostas em função dos índices divulgados por diferentes pesquisas. Além de mostrarem queda de Lula, os levantamentos apontam bom desempenho e potencial de crescimento de Tarcísio, hoje alternativa bem colocada também entre o chamado mercado, que abarca setores produtivos de peso e grandes investidores.
Para a professora Silvana Krause, do programa de pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs, outros dois pontos precisam ser considerados, combinados aos desdobramentos da denúncia: o aumento da desconfiança da população em relação ao Congresso Nacional, em função dos sucessivos escândalos das emendas, que pode aproximar ou afastar eleitores de todos os espectros. E a estratégia de articuladores de Bolsonaro, no sentido de o definir como vítima, que pode acabar tendo sucesso.
“Os representantes do chamado Centrão tendem a ter muito cuidado em suas manifestações sobre o caso. Como, inclusive, já pode ser constatado. Do ponto de vista da direita tradicional, os atores vão acompanhar o que vai ocorrer nos próximos meses para se posicionar. E os vários possíveis candidatos à presidência em 2026 se colocam, mas de forma branda, enquanto observam para onde vai a construção da opinião pública”, explica a professora.
Ela destaca o crescimento do ‘voto à direita’, mas ressalva que, neste momento, este campo político não possui uma liderança aglutinadora do porte de Bolsonaro. “É um novo desafio para este espectro do campo ideológico, porque o ex-presidente, que detinha apelo popular/populista, não possui mais as condições anteriores para manter a unificação. O desafio é encontrar um nome que una a direita”, adianta. Silvana endossa ainda a avaliação de que o ‘cansaço’ do eleitorado em relação a polarização pode sim abrir espaço para nomes ao centro.
Fonte: CP