Com o futebol pobre da Seleção, fui atraído pela riqueza dos detalhes.
Na cabeça de alguns jogadores repousavam verdadeiras obras de arte, com fios de cabelo que pareciam alinhados um por um e fixados por uma dose exagerada de laquê.
Nos pés, chuteiras multicoloridas.

Fui remetido ao passado.
Se a memória não falha, o selecionado de 70 calçava chuteiras pretas.
Os cabelos pareciam penteados por pentes que as pessoas levavam no bolso de trás.
Aqueles craques estavam seriamente preocupados com o futebol e não em serem vistos como Apolo.


O jogo seguia seu rumo, o Brasil surgia chumbado ao gramado, o narrador se esgoelava tentando fazer da Colômbia um selecionado extraterrestre e eu revirei a memória na tentativa de encontrar o último grande Brasil.
Estacionei em 2002.


Lá se vão 23 anos.
Fui dormir pensando se veria outra vez um time como o de 70.
Convicto de que não, pensei se veria um como o de 2002.
Também não.


Adormeci com uma frase de Nelson Rodrigues:
“O patético de nossa época é que o passado se insinua no presente e repito: a toda hora e em toda parte, a vida injeta o passado no presente.”

Hiltor Mombach

Correio do Povo

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