Caminhada de Nikolas chega às redes

Opositores e apoiadores repercutem o movimento e acirram polarização; lema “acorda Brasil” está no topo dos assuntos mais comentados do “X”

O que começou como uma caminhada de protesto pela BR-040, entre Paracatu, no Norte de Minas, e Brasília, virou em poucas horas mais um episódio emblemático de polarização política. O deputado federal mineiro Nikolas Ferreira (PL) decidiu percorrer cerca de 234 quilômetros a pé em protesto contra decisões do Supremo Tribunal Federal, a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e a situação dos condenados pelos atos de 8 de janeiro. Bastaram alguns quilômetros para o gesto sair do asfalto e “ganhar corpo” nas redes. O senador Cleitinho (Republicanos) anunciou nesta quarta-feira (21/1) em seu perfil do Instagram que vai se juntar ao grupo.

Para a base governista, a caminhada foi tratada como encenação. Na rede social “X”, o deputado federal Rogério Correia (PT) chamou Nikolas de “andarilho da mentira” e acusou o parlamentar de tentar “ressuscitar o golpismo”. A deputada Célia Xakriabá (PSOL) optou pelo sarcasmo e publicou uma montagem que retrata o parlamentar como personagem de filme, sob o título “As aventuras do pequeno chupetinha – caminhando 72 horas para não ter que trabalhar”. O vereador de Belo Horizonte Pedro Rousseff (PT) completou o coro ao afirmar que o protesto estaria sendo feito “com o dinheiro do contribuinte”.

A oposição, por sua vez, fez o movimento inverso: elogiou a atitude de Nikolas e incentivou que as pessoas se juntem a ele. Carlos Bolsonaro anunciou nas redes que deixaria Santa Catarina para encontrar o deputado e passou a aparecer nos stories de Nikolas, que fazem uma cobertura quase em tempo real do trajeto. “É pelo teu pai e pelos presos do 8 de janeiro”, disse Nikolas ao abraçar o filho do ex-presidente às margens da rodovia. Outros nomes do campo bolsonarista, como o deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO), também aderiram ao percurso.

Mesmo ausente fisicamente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que é tratado nos bastidores do partido como pré-candidato à Presidência da República,  fez questão de marcar presença política. Em vídeo publicado no Instagram, fruto de uma videochamada com Nikolas, Flávio justificou a ausência citando as condições climáticas e uma viagem previamente agendada a Israel. “A gente tem que fazer nossa parte. O que não está no nosso controle, deixa Deus agir”, afirmou o senador. 

O primeiro vídeo publicado em seu perfil no Instagram dá a dimensão do alcance do movimento: mais de 1,2 milhão de curtidas e quase 69 mil comentários. Depois dele, outras duas publicações foram feitas, entre elas uma “carta aberta ao povo do Brasil”, na qual o parlamentar afirma que a caminhada não tem vaidade nem espetáculo, mas seria um “clamor por justiça” diante do que chama de desumanização de presos e perseguição a opositores políticos.

No “X”, o lema “Acorda, Brasil”, repetido incessantemente pelo deputado durante o trajeto, atingiu o topo dos assuntos mais comentados (trend topics). Algumas das postagens, porém, ironizam o ato encabeçado por Nikolas.

Na cobertura intensa feita pelos stories, que mistura fotos com manifestantes, oração e discurso político, o parlamentar constrói uma narrativa contínua. A cada 10 quilômetros percorridos, Nikolas cita uma personalidade presa, que considera “injustiçada” pelo Judiciário. Nos primeiros 10 km, o parlamentar fez referências ao ex-governador do Rio de Janeiro Pezão, até os 60 km o parlamentar citou nomes de presos no 8 de janeiro e chegando aos 80 km relembrou o caso do deputado federal Daniel Silveira(PL-RJ). Silveira foi preso em 2021 após publicação de vídeo no qual fazia críticas aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e defendia o Ato Institucional nº 5 (AI-5).

Mais do que registrar o trajeto, os vídeos parecem cumprem um papel estratégico: manter a militância em movimento num ano eleitoral em que o bolsonarismo – com o Messias preso – ainda busca um eixo. Não por acaso, a caminhada não termina em Brasília. A capital é o palco onde Nikolas pretende transformar o gesto individual em ato coletivo, com manifestação prevista para o próximo domingo (25/1). Já há, inclusive, caravana organizada saindo de Belo Horizonte para acompanhar a chegada.

Fonte: Tempo de Politica

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