Pix, Brics e dólar ampliam tensão entre Brasil e EUA
Por mais que fosse esperada a oficialização das novas tarifas americanas sobre o Brasil em 25%, a turbulência pode ser maior do que se pensa. Ainda que tenha sido informado aumento nas exceções, ou seja, mais produtos brasileiros livres dessa nova sobretaxa, mesmo assim o impasse vai longe.
Lembrando: o governo dos Estados Unidos passou a investigar o Brasil dentro das regras da Seção 301 da Lei do Comércio americana. Washington fez essa investigação por acreditar em iniciativas “desleais” por parte do Brasil no comércio com as empresas de lá, e acusa o Brasil de adotar “práticas ilegais” em temas como propriedade intelectual e acesso ao mercado de etanol, além de questionar também assuntos ambientais como desmatamento ilegal, entre outros pontos. Mas há um item em especial que deixa tudo mais difícil: o Pix.
Aquele argumento inicial do governo norte-americano sobre esse meio de pagamento tão popular por aqui estar prejudicando operadoras de cartão americanas não se confirmou. País afora a imprensa noticiou nos últimos dias casos de operadoras que apuraram inclusive aumento nas suas receitas em razão do próprio Pix.
Com a facilidade de mandar e receber dinheiro sem pagar taxa, a “bancarização” aumentou. Em outras palavras, mais pessoas passaram a abrir contas em bancos para poder usar o Pix. Com a conta corrente aberta, entre os produtos oferecidos ao cliente está o cartão de crédito. Portanto, mais cartões passaram a circular na praça. Que argumento é esse então de tirar espaço de empresas de cartões americanas? Sobre isso falei com o Gustavo Inácio de Moraes, economista e professor da Escola de Negócios da PUCRS.
Polêmica
“O Pix acabou entrando nessa polêmica porque o governo norte-americano entende que é prejudicial para as operadoras de cartão de crédito americanas, mas desde sua criação as operadoras cresceram no Brasil”, reitera Moraes, lembrando que a questão é mais ampla, poderia envolver praticamente o mundo todo e mudar as formas como a economia se movimenta. “O governo americano teme que surja um sistema de pagamento paralelo”, assinala.
Na prática
“Sistema de pagamento paralelo”. O professor Moraes explica. “O governo americano teme que o Pix possa se tornar uma prévia do sistema financeiro do Brics”, enfatiza o economista. O Brics é o bloco fundado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
“O maior temor é que o dólar deixe de ser a moeda usada em todas as transações mundiais, e eles enxergam no Pix potencial instrumento para viabilizar a moeda do Brics. O governo americano percebe o Brasil como hostil nessa dimensão”, observa Moraes.
A popularidade do Pix por aqui é indiscutível, mas torna o Brasil “hostil” lá fora. Saídas? Mesmo com nova tarifa de 25% já valendo e ainda que se adote reciprocidade nas taxas, seria importante manter o grupo de trabalho brasileiro que negociou com Washington. Se é a hostilidade que assusta, o diálogo vai precisar continuar.
Fonte: CP
