No Dia do Trabalho, Brasília recebe mobilização por justiça animal

Brasília será palco, no dia 1º de maio, de uma mobilização que consolida uma mudança no comportamento da causa animal no país: da indignação pontual para a pressão institucional. Em frente ao Congresso Nacional, ativistas, protetores independentes e representantes de diferentes regiões se reúnem para cobrar a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) e respostas concretas diante da escalada de crimes de maus-tratos.

O movimento ganha força em um contexto de crescimento consistente desses crimes no Brasil. Em 2025, o país registrou 4.919 processos por maus-tratos a animais, segundo dados do Conselho Nacional de Justiça — uma média de 13 casos por dia e um aumento de mais de 21% em relação a 2024. Em comparação com 2020, quando foram registrados pouco mais de 200 casos, o avanço ultrapassa 1.900% em cinco anos, evidenciando a dimensão do problema.

Os números ajudam a explicar por que episódios recentes deixaram de ser tratados como casos isolados. A morte do cão comunitário Orelha, em Florianópolis, em janeiro de 2026, tornou-se um marco dessa mobilização. O animal, que vivia há cerca de uma década na Praia Brava e era cuidado por moradores, foi encontrado com sinais graves de agressão e não resistiu. O caso gerou protestos em diversas cidades e impulsionou propostas legislativas para endurecimento das punições.

Outro episódio que reforça essa percepção é o do cão Johnny, em Goiânia, que também passou a simbolizar a fragilidade da proteção animal diante de situações de violência extrema. Para os organizadores da manifestação, a repetição desses casos evidencia uma falha estrutural — não apenas na legislação, mas na aplicação das normas existentes.

“Não estamos mais diante de episódios isolados. Existe um padrão que se repete e uma dificuldade clara de resposta institucional”, afirma um dos articuladores do ato. “Sem investigação estruturada, a impunidade tende a se manter.”

A mobilização também ocorre em meio a recentes mudanças normativas. Em março de 2026, o governo federal ampliou significativamente as multas por maus-tratos, que passaram a variar de R$ 1.500 a R$ 50 mil por animal, podendo chegar a R$ 1 milhão em casos agravados. A medida reforça a tentativa de endurecer punições, mas, na avaliação de ativistas, ainda não resolve a fragilidade na fiscalização e na prevenção.

Entre as principais reivindicações do ato estão a criação de orçamento específico para políticas de proteção animal, ampliação de programas públicos de castração, oferta de atendimento veterinário para animais em situação de vulnerabilidade e apoio institucional a protetores independentes. Hoje, grande parte dessas ações depende de iniciativas voluntárias, sem estrutura permanente.

A presença de nomes conhecidos da causa animal reforça o alcance nacional da mobilização. Kabelo Crespo, Estefânia Mota, Fernando Silva, Diego Sanchez e Camilla Lagertha confirmaram participação, reunindo diferentes frentes de atuação — do resgate à mobilização pública.

Estefânia Mota, que passou a atuar após perder seu animal em um caso de violência, resume o sentimento que move o ato. “Quando isso acontece, não é só um animal. Existe uma falha que poderia ter sido evitada. A gente precisa parar de reagir só depois que acontece.”

A escolha do Congresso como local da manifestação marca uma mudança de estratégia. A pauta, antes concentrada em redes sociais e protestos regionais, passa a buscar inserção direta no debate legislativo e na formulação de políticas públicas.

A expectativa é de um ato pacífico, mas com forte capacidade de pressão. Em um país onde ainda há cerca de 30 milhões de animais em situação de abandono e milhares sob tutela de organizações e protetores, a mobilização amplia a cobrança por medidas estruturais.

Mais do que um protesto, o ato em Brasília representa a tentativa de transformar uma sequência de casos — como os de Orelha e Johnny — em um ponto de pressão contínuo sobre o poder público.

(Por Gisele Flores – [email protected])

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