10 anos fora da União Europeia: referendo colocou a política britânica em uma crise sem fim e a economia na berlinda
Dez anos se passaram desde o Brexit e o Reino Unido se tornou muito diferente daquele que fazia parte da União Europeia quando seus cidadãos decidiram que era hora de seguir um caminho independente.
Ao contrário do que diziam os defensores da ruptura, porém, a escolha não resultou em mais prosperidade ou na “retomada de controle” que desejavam: mais de cinco anos após a saída efetiva do bloco, o país e vê imerso em uma crise política sem perspectiva de melhora, com o crescimento da direita radical e um custo de vida que vem aumentando ao longo dos últimos anos.
Parte desse caos foi ilustrado, mais uma vez, pela saída de um primeiro-ministro. Apenas um dia antes do aniversário do referendo, Keir Starmer, líder do Partido Trabalhista, renunciou ao seu cargo após meses de pressão externa e interna de seu próprio partido. Em um discurso nesta segunda-feira, 22, Starmer disse que havia entregado sua renúncia ao rei Charles III para cumprir o desejo de continuar fazendo o melhor para o seu país.
Além da ligação de um de seus aliados políticos com o financista condenado por crimes sexuais Jeffrey Epstein, uma das principais reclamações sobre seu governo, que tem pouco menos de dois anos, é a demora em entregar resultados prometidos por ele em 2024.
Sendo o primeiro líder vindo do Partido Trabalhista em 14 anos, Starmer prometeu trabalhar para melhorar a economia, o diminuir o custo de vida e atuar em negociações comerciais com a União Europeia. Sem conseguir resultados significativos, o primeiro-ministro deixa o cargo em setembro, atingido diretamente por demandas que surgiram após o Brexit, que além da mudança financeira, deixou o país politicamente dividido.
De acordo com uma análise do Deutsche Bank, a renúncia de Starmer ressalta as imensas dificuldades que muitos governantes enfrentam no mundo ocidental atualmente, tendo o Reino Unido enfrentado instabilidade em todos os mandatos desde o Brexit.
“Todos assumem o cargo com grandes esperanças, mas logo se deparam com a falta de crescimento e as realidades financeiras. Até que haja um crescimento econômico mais forte e menos restrições decorrentes da dívida, é altamente provável que a sucessão de primeiros-ministros continue”, apontou o comunicado.
É difícil fazer uma leitura do referendo e dos anos que o sucederam sem considerar que a polarização política – e o consequente crescimento da extrema direita – foi o principal produto da votação de 2016, de acordo com Laetitia Langlois, professora associada de Civilização Britânica da Universidade de Angers, na França.
“No plano político, a maior mudança foi realmente a ascensão fulminante da ultradireita britânica, que antes do Brexit era uma força secundária. O Brexit mudou isso, pois a vitória do ‘leave’ (‘deixe’, designação dos favoráveis à saída da UE) obviamente conferiu autoridade e credibilidade às teses da ultradireita em geral. Hoje nos deparamos com uma ultradireita que nunca esteve tão forte em toda a história do Reino Unido”, explicou Laetitia em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.
Esse crescimento, fortalecido pelo referendo, não é exatamente fruto do Brexit, mas foi legitimado pelos motivos que levaram à votação. O principal lema da campanha para deixar a União Europeia era “Take back control” (tomar o controle de volta, em tradução literal), que implicava que as regras estabelecidas por Bruxelas estariam tirando do Reino Unido a sua posição de decidir seu próprio futuro.
A soberania do Reino Unido era o grande fio condutor de todo processo: o país estaria perdendo sua capacidade de decidir questões como fronteiras e investimentos. Essa ideia alimentou partidos anti-imigração, como o Reform UK, liderado por Nigel Farage, que constantemente lançavam campanhas afirmando que a UE estava permitindo que imigrantes do Oriente Médio e do Leste Europeu entrassem “livremente” para o Reino Unido, mesmo com o país fora do Espaço Schengen, que facilitava o trânsito de pessoas entre países da Europa.
A diferença de pensamento nas metrópoles e no interior também tiveram um grande peso no crescimento da extrema direita a partir dos ideais nacionalistas que se reforçaram com o Brexit. Enquanto Londres, como a capital e centro financeiro, atraía investimentos, regiões do norte do país, formadas pelas antigas cidades industriais e costeiras, não recebiam a mesma atenção. Para eles, além da falta de investimento, a chegada de imigrantes era uma pressão a mais nos sistemas públicos.
Isso fez com que o apoio aos pequenos partidos radicais aumentasse, como forma de demonstrar a insatisfação tanto com os governos trabalhistas quanto com os conservadores, que, na visão dos eleitores, continuavam esquecendo a região.
“Em 2019, muitos desses eleitores do “leave” votaram no Partido Conservador de Boris Johnson, mas o partido os decepcionou ao permitir que a imigração aumentasse descontroladamente e ao não conseguir melhorar os serviços públicos, como os defensores do Brexit alegavam que seria possível. Como resultado, eles migraram para partidos muito mais à direita no espectro político”, apontou Tim Bale, professor de política da Universidade Queen Mary, de Londres.
Dificuldades em implementar a saída da União Europeia, que só aconteceu definitivamente em 2021, também ditaram o clima de tantas mudanças políticas. O Reino Unido teve seis primeiros-ministros em um período de 10 anos, onde quase todos renunciaram por problemas relacionados ao Brexit, seja de forma direta, por não conseguir negociar os termos da saída, seja por problemas econômicos agravados após o referendo. A falta de confiança na capacidade de governar e liderar o país em um momento de transição foi a tônica comum na política britânica, segundo especialistas.
A renúncia de Starmer foi a quinta em dez anos. Apenas Rishi Sunak, primeiro-ministro de 2022 a 2024, terminou o mandato nesse período. Sucessor de Liz Truss, que ficou apenas seis semanas no poder, Sunak convocou eleições com um ano e meio no cargo e perdeu o pleito para o Partido Trabalhista.
“A campanha a favor do Brexit prometeu muitas coisas. E, principalmente, que, ao sair da União Europeia, o Reino Unido recuperaria o esplendor e a glória do passado. E é preciso constatar que não foi isso que aconteceu. Hoje, o Reino Unido busca se aproximar bastante da Europa. Porque o Reino Unido percebe que, em um mundo em profunda turbulência, marcado por conflitos — incluindo um às portas da Europa —, sair de uma união é, afinal, uma medida bastante arriscada. Portanto, essa grandeza não voltou”, apontou Laetitia.
“O Brexit afetou o crescimento econômico, o que significa uma queda na arrecadação tributária do governo, o que o forçou a gastar menos com serviços públicos do que o necessário para mantê-los funcionando de forma a satisfazer os eleitores. Também teve um efeito negativo, juntamente com a inflação causada por outros fatores, bem como pela desvalorização da libra esterlina, sobre os salários reais, o que significa uma crise do custo de vida para muitos eleitores”, explicou Bale.
Na época do Brexit, uma das campanhas lideradas por Boris Johnson, que mais tarde se tornaria primeiro-ministro do país, foi o símbolo do voto para deixar a UE. Banners colocados nos tradicionais ônibus vermelhos de Londres dizendo que os 350 milhões de euros que eram destinados à UE pela participação no bloco seriam destinados para o NHS, sistema público de saúde britânico. Nigel Farage, símbolo do voto para deixar a UE, foi um dos primeiros a dizer, após o pleito, que o montante não seria utilizado no sistema de saúde.
A “quebra” da promessa foi significativa. Não só o NHS perdeu o investimento como os índices de inflação se tornaram maiores do que o restante da Europa. Apenas no setor de energia, houve um aumento de mais de 60% do preço ao longo dos últimos anos. Em 2022, após a pandemia e no início da guerra da Ucrânia, a inflação chegou à 11%, de acordo com Escritório de Estatísticas Nacionais (ONS, na sigla em inglês).
O National Bureau of Economic Research estimou que, no ano passado, o PIB do Reino Unido encolheu de 6% a 8%, resultado, também, do recuo de investidores diante da incerteza política e econômica.
Fonte: O Estado de S. Paulo.
